quarta-feira, 1 de abril de 2009

tudo o que sobe, desce

Tudo o que sobe desce. Tudo o que nasce morre.

São certezas que de tão banais se diriam dignas de La Palisse. Verdades que nos acompanham diariamente mas que, apesar de tudo, não parecem estar totalmente enraizadas, pelo menos naquilo que são as suas consequências totais.

Continuamos a ter medo da morte e de morrer. Sabemos, e brincamos, que é o que de mais certo temos na vida, mas chegado o momentos agarramo-nos à vida com força sobre-humana. Porquê?

Não queremos morrer. Temos medo desse desconhecido. Mas também ninguém quer ser velho. E numa sociedade como a nossa isso é cada vez mais patente. Ninguém quer ser velho, ninguém quer ser imortal. Mas também não se quer morrer.

Porque temos medo? O que assusta assim tanto na morte?

Um músico português da moda, diria que o que assusta não é a morte, mas sim a forma de morrer.

Talvez. Quantas vezes não ouvimos a expressão “não quero dar trabalho”.

Não queremos morrer. E compreende-se. Afinal de contas só sabemos viver. É a viver que encontramos sentido para a nossa vida. Ou será que é na morte que encontramos esse sentido?

A verdade é que conhecemos a vida e é isso que temos e é por isso que lutamos. Talvez isso represente mais um problema do que um bem em si mesmo. Talvez a melhor forma de viver parta exactamente do aceitar aquilo que como dissemos antes é a única certeza que temos desde o nosso nascimento: estamos a caminhar para a morte. Mas isto será tema para um próximo capítulo.

O que nos interessa neste momento é abordar este medo, a recusa da morte.

“Há pensamentos insuportáveis, coisas que não s confessam, especialmente a nós próprios. O terror de morrer; de deixar de existir; de ser varrido, aniquilado. De se acabar o tempo para a fazer o que queríamos[1]”.

O medo da morte é pois devido ao facto de a morte ser interrupção abrupta, violenta da vida. E quantas vezes não vem cedo demais, ceifando até aqueles que supostamente que ainda não tinham visto a sua hora chegar. Crianças; jovens; vítimas de acidentes; negligenciados; vítimas da violência;

É essa interrupção que assusta. A questão da morte está pois intimamente ligada à questão da vida. Não queremos morrer porque queremos viver, porque passamos toda uma vida em busca do sentido da vida e de uma realização pessoal. Anos investidos em estudos, carreiras; vidas de sacrifício para construir uma família e de repente a morte vem e tudo leva e todo o esforço até então vivido parece ter sido em vão.

Esta ligação parece pois paradoxal. A resposta aos anseios da vida, pode estar num enfrentar da própria morte. Diz o Dr. Irvin D. Yalom refere que “olhar a nossa própria morte é transformador e dissipa o medo. Embora a morte física nos destrua, a ideia da morte salva-nos[2]”.

E salva-nos porque nos obriga a tomar uma atitude.

Face à consciência do medo da morte a solução é “olhá-lo de frente, observá-lo, explorá-lo, testá-lo[3]” são maneiras mais eficazes de dominar o medo da morte do que quando se evita esse contacto.

A própria sociedade mudou na forma como se relaciona com a morte é uma questão cultural.

As crianças são ensinadas sobre a origem, o nascimento, concepção. E cada vez mais cedo. E assim encontramos crianças e adolescentes que sabem como  “se faz um bebé”, mas que não sabem o que aconteceu ao avó que nunca mais viram.

Nega-se o envelhecer. Há quase um pavor quase generalizado em ser velho. E verificamos as situações ridículas a que se sujeitam tantas pessoas na sua busca pela juventude perdida quando se submetem a numerosas intervenções cirúrgicas e cujo resultado é lamentável.

A própria morte é disfarçada, vejam-se as novas empresas funerárias que já prestam serviço de maquilhagem nos cadáveres.

A própria língua mudou, existem seguros de vida e não de morte; até os testamentos são de vida e não de morte.

Tudo serve para disfarçar o facto da morte.


[1] MOURA, Cláudia, A morte faz-nos tão bem in Notícias Magazine n.º 859 p.60; (Artigo sobre o Dr. Irvin D. Yalom a propósito do lançamento do seu livro intitulado: De olhos Fixos no Sol)

[2] MOURA, Cláudia, A morte faz-nos tão bem in Notícias Magazine n.º 859 p.60

[3] MOURA, Cláudia, A morte faz-nos tão bem in Notícias Magazine n.º 859 p.62

1 comentário:

Rosa disse...

"O clarão de um raio incendiou os vitrais. Mas o trovão só já tarde se ouviu, distante, espraiado em grandes rolos, como a notícia de uma praga longínqua. Eu calava-me, indeciso, intrigado, quase enove-lado de vexame. [...] Mas Ana fugia, eu o pensava dolorosamente, eu o via absurdamente, opacamente, como um muro. Uma memória envelhecida de cera, de água benta, de meninos de coro, de beatas, de novenas, de indulgências, de confessionário instalou-se-me no estômago até à náusea. Era impossível que Ana, a bela Ana de olhos de fogo, da graça invulnerável do seu dente irregular, da força plena do seu corpo, ignorasse a degradação que eu lhe estava imaginando. Impossível? Não sei, não sei, não sei: tu casaste com Alfredo...
- Foi aqui que puseram a urna de Cristina - disse ela inesperadamente.
- Cristina? Mas porque é que...
-Aqui...
Depois, transfigurada, falou, falou. Frases desconexas, ideias avulsas, pedaços de um monólogo, de um naufrágio profundo:
- ...E de súbito vê-se que não é possível morrer. Que não é possível! Onde está Cristina, a que era ela, não a que morreu de vestido de holandesa, não a que tocava, ela tocava tão bem... Havia outra, outra, profunda. ELA, eu vi-A, até ao seu olhar, ao seu sorriso, eu vi-A, eu vejo-a, relembro-a, está aqui comigo, conheço-a, só me não pode falar. Sou irmã dela, não eu, que você vê, sou irmã dela EU, que estou comigo, que me sinto ser, eu... Então e eu poderia lá morrer? Sou irmã dela e de você e disto que anda aqui neste silêncio grande, no eco da chuva, dos relâmpagos, dos trovões que ressoam com uma voz que não vem nos livros, que é uma voz dos grandes céus desertos. Como diz você? A voz inicial... Ouço-a, sei-a... Mas isto é muito maior que nós, muito maior, muito maior... Reduzir essa voz à «dimensão humana»? Da dimensão humana são só os ouvidos para a ouvirem. E é preciso não estar distraído. Então a gente assusta-se, a gente sabe que tudo isso existe...
- Não era assim, não era assim...
- Mas ninguém me entende. O meu pai julgou que sim. Não entende. Ele também anda distraído...
- Mas você veio aqui. E 'aqui é o lugar de seu pai...
- Aqui é um lugar em que se ouve bem... Aqui é um lugar que tem uns restos do que é importante. Estas cúpulas, esta hora fechada...
- Mas você «acredita». Em quê?
- Não pretenda que eu diga, não pense que eu diga um nome. Sou pequena e sei que 35 a grandeza existe. Existe onde? Existe. Sinto-o em mim como uma pancada no escuro..."

Vergílio Ferreira, Aparição