Às vezes sonho contigo (ou com os outros que já partiram). A minha mãe diz sempre que quando sonhamos com os nossos mortos é porque eles estão a precisar de uma oração, para poderem continuar a sua jornada "lá em cima".
O sonho varia (o teu e o dos outros). Por vezes recordo tudo: o tom de voz, o toque, o cheiro, a maneira de ser, as canções, as brincadeiras de infância, as rabanadas, a casa sempre aberta, o lenço na cabeça e por aí fora. Outra vezes o sonho é perturbador, vejo-te como da última vez, naquela existência que já não é sermos nós, naquela linha ténue entre o que foi e o que há-de vir, naqueles olhos baços e inexpressivos. É assim contigo (bem sei que em vida era consigo) e com os outros.
No entanto, os sonhos e as recordações são cada vez mais escassos. É precisamente isto que me inquieta na morte: o esquecimento. Não me lembro tanto de ti nem sonho tanto contigo. Habituei-me a viver sem ti; pouco a pouco, é como se não tivesses existido. Mas eu sei que exististe, estavas cá (tu e os outros) e não foi assim há tanto tempo. A vida continua, a dor diminui e acomodamo-nos com a ausência. Ño entanto, não deixa de ser assustador, como alguém que nos foi tão próximo e tão querido, possa ser assim tão pouco recordado. Quando abandonamos as recordações (boas e más), quando não houver ninguém que se lembre de nós, é como se não tivessemos existido. Não somos famosos, não nos encontramos nos livros de história nem na Wikipédia, quando as nossas pessoas partirem, quando já ninguém se lembrar de nós é como se nós não tivessemos sido. É esta uma problemática da morte. Não conhecemos outra vida, outras pessoas, outra forma de estar. Como pode fazer sentido tudo acabar e nós perdermos a nossa "importância", o nosso ser, a nossa essência, a nossa alma? É só mais uma manifestação do egocentrismo do ser humano?
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